A permissão para se tornar mãe

Autora: Aline Melo de Aguiar

Quando engravidei, aos 18 anos, fiquei muito feliz apesar da idade precoce, mas eu mal compreendia o que significava “se tornar mãe”. Naquela época eu pensava (ou melhor eu não pensava, eu era pura crença, preconceito e fantasia) que para ser mãe bastava engravidar e esse seria o passaporte definitivo para ocupar a posição por mim tão desejada – “ser mãe”. Hoje 19 anos após o nascimento da minha primeira filha, que já é uma mulher mais velha do que eu quando engravidei, posso perceber que a gravidez propriamente dita não é suficiente para habilitar uma mulher a se perceber e se sentir como mãe.

Atualmente, trabalho com mulheres gestantes e recém-mães, a maioria com mais de 30 anos, e é impressionante a quantidade de inseguranças e medos que surgem quanto a própria capacidade de se tornarem mães. Confesso que isso, em absoluto, passou pela minha cabeça em minha gestação (coisa de adolescente?). Mas reconheço que foi muito difícil me apropriar do bebê como meu filho.

Tanto em adolescentes quanto em mulheres mais vividas o processo de encarar a maternidade de frente e assumir que, após nove meses, serão mães, envolve inúmeros aspectos, dentre os quais, uma sutil permissão de sua própria mãe (agora avó, ou outra figura feminima acolhedora) e quando esta mulher (que está mudando novamente de fase no ciclo da vida – o que também pode gerar conflitos) não está por perto, culpas e medos podem se tornar mais fortes neste período de tanta fragilidade que é a gravidez e o pós-parto.

Outro dia ouvi da mãe de um pequeno bebê que pensava em desistir da amamentação no seio quando o filho tinha cerca de 30 dias de vida, mas que sua sogra foi fundamental para que ela mantivesse o aleitamento. Essa mulher, mais velha, vista pela sociedade como uma legítima mãe, pôde validar aquela outra mulher, que estava tão frágil após o parto, na sua função de aleitar. Esta avó simplesmente trouxe o bebê limpo e cheiroso após o banho para perto da mãe e imitando a voz do bebê falou: “mãezinha, estou aqui. Estou limpinho e cheiroso e preciso do seu mamá. Você me pega agora?” Com esta fala, fez com que a mãe se sentisse capaz de cuidar de seu filho, se percebesse com um leite nutritivo e que seu bebê realmente precisava dela.

Mais importante do que o que há para dizer, às vezes, é a forma como se diz. Se essa avó, ao invés de, sutilmente, mostrar a essa mãe que ela era capaz, dissesse todas as coisas que ela fazia de errado e tivesse ensinado mil técnicas que funcionaram com ela, provavelmente esta recém-mãe haveria abandonado o aleitamento ao seio por se sentir incapaz, menos mãe e, consequentemente, culpada, insegura e com medo podendo, em casos extremos, até desenvolver uma depressão pós-parto por não ter uma rede de apoio protetora e cuidadora que a validasse como mãe.

Sim, precisamos de permissão para assumir que nos tornamos mãe, precisamos de afeto, de cuidado e, principalmente, de compreensão e empatia para atravessar este momento tão forte dentro do ciclo vital e, ao mesmo tempo, de tanta fragilidade emocional. Neste ponto, o grupo de gestantes e o grupo pós-parto são fundamentais para complementar esta rede de apoio e servir de suporte para que gestantes e mães possam se perceber tão capazes de cuidar de seus bebês como realmente são e, também, não se sintam tão sozinhas ao perceber que várias outras mulheres carregam as mesmas angústias.