Aspectos filogenéticos da amamentação

Este texto é parte do capítulo Aspectos Psicossexuais na Lactação, do livro Amamentação – Bases Científicas, pela Editora Guanabara Koogan

por Aline Melo de Aguiar e Vitória Pamplona

A amamentação, como já foi visto em outros capítulos deste livro, apresenta uma gama de vantagens fisiológicas para a mulher e propriedades nutritivas que a tornam a melhor forma de alimentação para o bebê; mesmo assim, o desmame é precoce em muitos casos e essa atitude, que parece incoerente, pode ter explicações no psiquismo e/ou na cultura em que a mulher e sua família estão inseridos. Para compreender essa relação complexa, alguns aspectos filogenéticos serão abordados pela ótica da Psicologia Evolucionista (PE), mostrando que o ser humano é biologicamente cultural e que essa relação entre biologia e cultura afeta o modo como os pais cuidam de seus bebês, incluindo o modo de alimentá-los.

A PE baseia-se na teoria da evolução de Darwin (1859/2004) para discutir a adaptabilidade do ser humano a seu meio, utilizando conceitos da Etologia, da Sociobiologia, da Ecologia Comportamental e da Psicologia Cognitiva (Seidl-de-Moura, 2005). Considera tanto as predisposições biológicas quanto as características do comportamento em diferentes contextos, sem desprezar os fatores individuais, mas objetivando saber como ocorre a interação entre fatores da espécie e a experiência pessoal (Vieira & Prado, 2005), compreendendo a continuidade filogenética entre homens e animais de modo geral, para conhecer como cada espécie evoluiu em seu meio físico e social (De Wall, 2007; Vieira & Prado, 2005).

As premissas da Psicologia Evolucionista são: (1) existência de uma natureza humana universal, constituída de mecanismos psicológicos que são produto da evolução da espécie e não de comportamentos específicos; (2) os mecanismos psicológicos são adaptações resultantes de um processo de seleção natural ao longo do tempo evolucionário; (3) a estrutura da mente humana é adaptativa ao ambiente ancestral de evolução, envolvendo mecanismos de processamento de informação que permitem que os seres humanos produzam, absorvam, modifiquem e transmitam cultura (Bussab & Ribeiro, 1998; Bussab, 2000; Seidl-de-Moura, 2005).

A adaptação e a seleção natural são conceitos fundamentais para a PE, conforme Vieira e Prado (2005):

Uma estrutura anatômica, um processo fisiológico ou um padrão de comportamento que contribui para um indivíduo sobreviver e se reproduzir em competição com outros membros de sua espécie são considerados efeitos adaptativos. A seleção natural atua sobre a solução que um organismo dá para algumas características do ambiente, como a chegada de um novo predador ou a mudança de clima (p. 159).

Um bebê, quando nasce, traz consigo um pouco da história da espécie, na qual alguns aspectos estruturais do seu desenvolvimento foram selecionados ao longo de milhares de anos. Podemos exemplificar com a imaturidade com a qual nasce a espécie humana e as propensões para aprender e se socializar. Esses processos não são arbitrários nem inflexíveis, mas adaptados ao longo do tempo (Vieira & Prado, 2005).

A responsividade materna é considerada um processo de seleção natural, pois uma mãe/fêmea que atende prontamente às necessidades de seu bebê/filhote tem mais chance de fazer seu rebento crescer, desenvolver-se e, posteriormente, reproduzir-se, transmitindo seus genes para mais uma geração. Falando da responsividade materna humana especificamente, deve-se levar em conta também o temperamento do bebê na interação com sua mãe (Bussab, 2000): um bebê mais calmo ou mais irritado modela o comportamento da mãe; assim também as características da mãe influem nessa interação, constituindo um caminho em mão dupla.

O bebê humano, segundo a abordagem evolucionista, traz uma mente propícia ao aprendizado, contendo regras inatas que podem influenciar o padrão de comportamento a partir de uma seleção de estímulos no ambiente. Acredita-se que essa função é necessária para aumentar a capacidade do indivíduo para sobreviver e perpetuar a espécie. Segundo Vieira e Prado (2005),

nosso cérebro foi moldado pela evolução para ter certos processos psicológicos, tais como filtros perceptivos, regras de aprendizagem e mapas cognitivos, que organizam nossa experiência para que tenham um significado evolucionista (p. 160).

Desse modo, o bebê humano nasce com todo o aparato fisiológico para sugar, mas ainda precisa aprender a mamar, seja no seio ou na mamadeira, e isso dependerá de como a mãe irá interagir com seu bebê.

É sempre bom lembrar, entretanto, que nosso cérebro remonta ao Pleistoceno (1,8 milhão a 10 mil anos atrás), com 99% da evolução humana no modo de vida caçador-coletor (Bussab, 2000), ou seja, o ambiente atual é muito diferente do ambiente originário de nosso cérebro. Sendo assim, por exemplo, a preferência por alimentos gordurosos e açucarados não é mais adaptativa, pois não vivemos mais em uma situação de completa escassez de recursos. Levando em conta a época atual, não podemos desconsiderar que a tecnologia médica contribui para maior expectativa de vida; ao mesmo tempo, a sociedade industrializada gerou várias doenças, como hipertensão, diabetes e entupimento de artérias, entre outras, assim como influiu para o desmame precoce.

Verifica-se, pois, o amplo espectro de estratégias humanas comportamentais para criar condições de sobrevivência, independente da época e do contexto social. Atualmente, encontram-se no mercado diversos tipos de bicos, mamadeiras que são anunciadas como sendo iguais ao seio, bombas extratoras de leite, protetores de mamilo, pomadas etc., caracterizando a atuação da tecnologia/cultura em um aspecto biológico que é a lactação; da mesma forma, a rede de apoio (pai, avó, babá etc.) é um componente cultural que varia segundo cada contexto e ajusta o modo como a amamentação é vista em cada época e lugar.