Mãe é só amor?

Aline Melo de Aguiar

“Estou grávida e deveria me sentir em estado de êxtase, pois ser mãe é o máximo da existência de uma mulher. Os amigos ficam felizes, os avós fazem mil planos, todos falam da completude que se sente nesta fase. Mas eu estou me sentindo ao contrário… Tudo incomoda, estou enjoada, minha lombar dói e, pelo menos por enquanto, não sinto prazer nenhum em estar grávida. Devo ser anormal, pois todos falam que é maravilhoso. E o pior, não tenho ninguém para poder dividir este sentimento angustiante de não me sentir feliz quando deveria estar. Pode ser que com o tempo eu me acostume, mas está difícil passar por este momento, estou sensível, meu marido não me entende e me sinto solitária. Será que tenho o direito de me sentir assim já que fui abençoada com esta gravidez e vou ser mãe?”

Dia após dia ouço este relato em minha prática profissional ao acompanhar gestantes e posso garantir que muita gente passa por isso. Eu também passei e me senti solitária. Busquei o trabalho com mulheres para dizer a elas: Não se sintam sós! É absolutamente normal este turbilhão de emoções (boas e ruins) durante a gestação. E o melhor de tudo: em grupo é muito mais fácil digerir tais sentimentos e entender que cada fase faz parte do processo do tornar-se mãe.

O ciclo gravídico-puerperal, além das modificações fisiológicas que causa no corpo da mulher, tem uma forte função social dentro da nossa cultura e isso é carregado de crenças e estereótipos do tipo “estou grávida, portanto sou feliz”, “mãe é santa”, “mãe ama incondicionalmente”, “mãe não tem sexualidade”. Tais crenças são construções sociais que mudam ao longo do tempo e dependem do contexto em que vivemos. Daí tanta confusão entre gerações e até mesmo entre marido e esposa, já que cada um foi criado em uma família diferente, portanto, com crenças diferentes.

Quando pergunto a um casal sobre o que é ser “boa mãe” ou “bom pai” recebo as mais diversas respostas. Para um, boa mãe pode ser aquela que fica em casa cuidando do filho e, para outro, pode ser ganhar dinheiro para custear cursos e brinquedos caros. Como conciliar tamanhas diferenças para criar um bebezinho que está por vir? Muito mais do que amor, gestar e parir um filho torna-se uma negociação diária entre pais, familiares, grupos sociais, conceitos e preconceitos.

E então, vocês concordam que “mãe” é muito mais do que amor?