Por que não empoderar as bonecas?

Refletindo sobre a entrevista que Taís Araújo concedeu ao Jornal do Brasil e sua frustração por ver a sua filha, à despeito do que ela acredita e defende, gostando de brincar com bonecas, me ocorreu uma questão: por que não empoderar as bonecas? Como quase tudo o que se pensa nesse mundo, pesquisei no Google e descobri que alguém já tinha pensado. Na verdade, a Mattel, fabricante de brinquedos e bonecas, dentre as quais a Barbie – oportunamente ou não -, pensou sobre isso e desenvolveu uma campanha publicitária. E uma mestranda, uma doutoranda e um professor da Universidade Federal de Santa Maria – RS repercutiram sobre isso.

A campanha da Mattel mostra que brincar de bonecas não precisa replicar padrões pré-estabelecidos de papeis femininos. Que, pelo contrário, pode estimular meninas a se imaginarem exercendo os mais variados papéis, inclusive desempenhando profissões ocupadas majoritariamente por homens. Já o estudo, apesar de ver méritos na campanha da marca, revela como a própria campanha replica diversos estereótipos. Mas, de certa forma, evidencia que a boneca, apesar de ser historicamente utilizada como replicadora de padrões femininos distorcidos, pode, sim, ser utilizada para alterar esses padrões.

Ao final, serão apresentadas a fala da Taís Araújo e o link para o estudo “Representação e gênero: Imagine The Possibilities”. Pontos de vista de uma mãe que deseja que a filha goste menos de boneca e se interesse mais por outros tipos de brinquedo e de pesquisadores que vislumbram a possibilidade das bonecas serem vistas com outros olhos. Não necessariamente, pontos de vista conflitantes. A postura de Taís de permanecer oferecendo alternativas à filha é acertada. Mas, por que não fomentar a filha a brincar de forma empoderada com suas bonecas?

O estudo aponta que “as representações são firmadas sobre ideias, sentidos e estereótipos que perpassam gerações” e que, portanto, “também é ao longo do tempo que elas podem ser alteradas”. E pondera: Com as representações de gênero não seria diferente e, quando falamos no universo feminino, vem à tona uma gama de temas envolvidos e que estão nas pautas cotidianas de debates e discursos, como violência, mercado de trabalho, discriminação, representatividade, entre outros.

Em relação à campanha de empoderamento da boneca feita pela fabricante de boneca, conclui: A campanha idealizada pela Mattel tem sua relevância pois, embora possua um viés mercadológico, ele foi utilizado de forma positiva ao propor novas formas de representação e significação. Inserida no ramo de brinquedos infantis, a empresa também deve se adequar às questões pertinentes no contexto atual. Conjuntamente a isso teve a preocupação de proporcionar espaço para que se repensem ideias e se crie uma geração diferenciada. Se hoje temos um mundo mais plural e diverso, com diferentes constituições de identidade, gênero, família, para que se tenha uma ligação com seu público alvo, é preciso que isso seja levado em conta na hora de criar representações. Podemos ver estas mudanças na configuração do papel da mulher.

Enfim, esperamos que os pais de crianças que gostam de brincar de bonecas não percam a oportunidade de brincar de boneca com suas filhas e filhos de forma construtiva. Usando esse brinquedo – que não é responsável pelo seu mau uso e associação à ideias inadequadas – de forma lúdica, criativa e fomentadora de transformações.

Transcrição da fala de Taís Araújo:

“Tenho uma filha de 2 anos e oito meses que ama rosa, enlouquece com princesas, brinca de mãe e filho o dia todo e chora quando entra numa loja de brinquedos querendo ferro e tábua de passar! Socorro! Confesso que, cada vez que vejo esse movimento todo dela, me arrepio da cabeça aos pés. Parece piada que minha filha aja de maneira tão contrária a tudo que eu acredito; mais ainda, de maneira contrária a tudo que prego no meu dia a dia, a tudo que acredito que seja uma construção social das mais cruéis que segregam meninas e traçam pra elas um único e fatídico destino, a tudo que fuja do roteiro traçado por essa construção que seja carregado de culpa e julgamentos! Não acredito que existam brinquedos de menina ou de menino. Quando minha filha nasceu, não comprei um brinquedo. Bom, ela tinha um irmão de 3 anos, a casa já estava cheia de brinquedos e ela não precisava de nada além daqueles. Assim ela ficou, sem brinquedos novos até completar um ano, se não me engano. Foi ali que chegaram as primeiras bonecas, não sei quem deu, não me lembro, mas me lembro com perfeição quando ela, com um ano de idade, pegou uma boneca no colo e ninou. Fiquei muito espantada, mas sabia que ela estava reproduzindo o que fazíamos com ela, mas e as princesas? Pode ser influência das amiguinhas. E a cor rosa? E a predileção por saias e saias que rodem? E a paixão por panelinhas e fogão? E o ferro e a tábua de passar, minha gente?! Acredito que seja tudo repetição do que ela vê à sua volta, mas ela também vê (e muito) outras coisas… até pq quando senti esse movimento, a minha primeira ação foi apresentar a ela outras opções, para que ela pudesse perceber que além do mundo de fadas, bonecas, saias, panelinhas e princesas existe muita coisa legal com que ela também pode brincar. Não adianta, ela gosta desse mundo, esse é o mundo de brincadeiras que ela escolheu pra chamar de seu. Eu, como mãe, acredito que devo continuar dando opções para que ela sempre saiba que pode sim ser o que quiser: astronauta, bailarina, bombeira, princesa, médica, fada, engenheira, cozinheira, professora, princesa, passadeira… não importa, o que importa é ela conquistar a liberdade de ser o que ela quiser.” (Fonte: http://www.jb.com.br/heloisa-tolipan/noticias/2017/09/14/tais-araujo-desabafa-sobre-gostos-da-filha-contraria-a-tudo-que-prego/)

Link para o estudo “Representação e gênero: Imagine The Possibilities”, de autoria de Andréa Corneli Ortis, Mariana Nogueira Henriques, Flavi Ferreira Lisbôa Filho, da Universidade Federal de Santa Maria – RS:

http://portalintercom.org.br/anais/sul2017/resumos/R55-0004-1.pdf